Retratos entre nós
vivência fotográfica como recurso para elaboração do luto
DOI:
https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2026.v29.789Palavras-chave:
Fotografia, Luto, Psico-Oncologia, Psicologia Médica, Cuidados PaliativosResumo
A vivência do adoecimento oncológico implica importantes repercussões subjetivas, frequentemente atravessadas por múltiplas perdas. Nesse contexto, o luto antecipatório pode emergir como um processo de elaboração que, quando adequadamente acompanhado, exerce função adaptativa ao favorecer a preparação e a reorganização do paciente e de sua família diante da finitude. Considerando tais complexidades, o presente estudo propôs a construção de uma vivência fotográfica e narrativa como recurso para elaboração do luto experienciado por pacientes gravemente adoecidos. Trata-se de uma pesquisa de campo exploratória, transversal e qualitativa, da qual participaram sete pacientes com doença oncológica avançada em acompanhamento pela equipe de cuidados paliativos durante período de hospitalização. Para a coleta de dados, os participantes foram orientados quanto ao manuseio dos instrumentos de pesquisa e convidados a fotografar aspectos de seu cotidiano e de sua dinâmica afetiva. As fotografias reveladas foram entregues após período de preparo, sendo posteriormente realizada uma entrevista semiestruturada para investigação dos objetivos propostos. Os dados foram organizados em três categorias e analisados segundo o método de análise de conteúdo temática. Observou-se que a experiência fotográfica atuou como alternativa para a quebra da rotina de internação, favorecendo o fortalecimento de vínculos com a família e com a equipe, além de promover fortalecimento pessoal do paciente. A intervenção também possibilitou resgates biográficos e reflexões acerca da autoimagem e da finitude. Evidenciou-se ainda a construção de narrativas associadas às perdas decorrentes do adoecimento, sendo as fotografias reconhecidas como recurso para a construção de memórias. As discussões acerca do tema contribuem para a ampliação e aplicação da intervenção na prática e na pesquisa em Psicologia Hospitalar e da Saúde, Psico-Oncologia e Psicologia Paliativista, mostrando-se como manejo possível para a humanização do cuidado.
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