Atuação de psicanalistas em contextos de emergência e sobrevivência no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2025.v28.Esp_1.910Palavras-chave:
Clínica psicanalítica, Intervenção na crise, Luto, Trauma psíquico, Atitude frente a morteResumo
Emergências são situações de alta gravidade e risco iminente de morte. Nesses contextos, destaca-se a importância da Psicologia no cuidado psicossocial, considerando tanto o potencial traumático quanto o sofrimento persistente dos sobreviventes. Há uma relação estreita entre as emergências e as questões ligadas à sobrevivência. As Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) na gestão de riscos, emergências e desastres reconhecem a participação da Psicologia na formulação de estratégias de intervenção desde 1987. No entanto, são escassos os relatos sobre a atuação de psicanalistas nesse campo, apesar de a Psicanálise abordar temas relevantes ao contexto emergencial, sugerindo possíveis contribuições para a prática clínica nesses cenários. Este estudo realizou uma revisão de literatura com o objetivo de mapear a produção científica sobre a atuação de psicanalistas em situações de emergência e sobrevivência no Brasil. Foram utilizadas duas bases de dados eletrônicas, LILACS e PePsic, com critérios específicos de inclusão e exclusão. Após triagem, foram identificados 8 relatos de experiência, que foram organizados em seis eixos de discussão. A análise dos textos revelou três operadores fundamentais para a prática psicanalítica nesses contextos: a escuta, o testemunho e o ato analítico, todos como suporte à subjetivação do acontecimento. Esses elementos aparecem tanto na fase de resposta e reconstrução, como no reconhecimento de corpos, despedidas e acolhimento imediato, quanto no acompanhamento de familiares e nas discussões interprofissionais. Conclui-se que a direção do tratamento deve levar em conta a temporalidade e as características do acontecimento, adotando estratégias e dispositivos clínicos que respeitem a singularidade dos sujeitos e dos territórios. Diante da escassez de publicações específicas, constata-se que a atuação da Psicanálise em contextos de emergência e sobrevivência ainda é pouco explorada na produção científica brasileira.
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