Entre a assistência e a escuta
a posição do sujeito na equipe de saúde durante a pandemia
DOI:
https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2026.v29.756Palavras-chave:
Morte, Luto, Instalações de SaúdeResumo
O artigo apresenta a reflexão teórica advinda de uma pesquisa realizada junto à equipe de enfermagem que atua na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital público no Nordeste, no contexto da pandemia da Covid-19. Foi do lugar da equipe de saúde (como psicanalistas) que estruturamos tal proposta, de modo que os achados aqui apresentados articulam aspectos da experiência de profissionais que atuam desde lugares distintos: da prática da enfermagem à prática analítica. A passagem de uma atuação circunscrita à assistência hospitalar aos pacientes para a oferta de escuta dos profissionais aconteceu pela importância, no contexto da pandemia, do acolhimento à angústia desvelada nos profissionais. Diante do abalo que a pandemia provocou no mundo e de seus efeitos no campo das práticas de saúde, profissionais precisaram se adaptar aos protocolos de biossegurança, lidar com o sofrimento dos pacientes e das famílias diante de um vírus desconhecido, dar um destino à angústia despertada com a proximidade e a expansão da morte. Partimos da aposta de que tal espaço de fala ofertaria maiores possibilidades de sustentação do trabalho da equipe de saúde e ordenamos a exposição dos achados, assim como a problematização que lhes corresponde, em três momentos: (i) Morte e luto na pandemia da Covid-19: resgates e construções diante da morte escancarada; (ii) A Covid-19, a morte e a equipe de enfermagem; e (iii) Os discursos, a equipe de saúde e o que escapa da objetividade científica. Observamos, ao longo desses meses, que a mudança de posição que pode advir da construção de espaços de escuta não implica somente os usuários dos serviços, mas também a equipe de enfermagem, na medida em que seus efeitos incluem a suspensão das exigências de garantia de saber e de resolução sem falha com as quais os profissionais de saúde são confrontados.
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