Entre o real e o imaginário

as percepções dos pacientes sobre o transplante cardíaco

Autores

  • Mariana Braga TEÓFILO Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Programa de Pós-Graduação em Psicologia - PPGP. Fortaleza, CE, Brasil. https://orcid.org/0000-0003-0965-2972
  • Luís Eduardo Pontes LUNA Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Centro de Ciências da Saúde – CCS, Curso de Psicologia. Fortaleza, CE, Brasil. https://orcid.org/0009-0008-4557-4709
  • Cynthia de Freitas MELO Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Programa de Pós-Graduação em Psicologia - PPGP. Fortaleza, CE, Brasil. https://orcid.org/0000-0003-3162-7300

DOI:

https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2026.v29.763

Palavras-chave:

Transplante de Coração, Luto, Simbolismo

Resumo

O transplante cardíaco é um procedimento complexo que envolve riscos cirúrgicos, mudanças funcionais e desafios emocionais que podem mobilizar experiências de luto e construções simbólicas sobre o órgão recebido. As vivências dos pacientes incluem dimensões reais e imaginárias, influenciando a adaptação psicológica, a adesão ao tratamento e a reconstrução identitária após a cirurgia. Objetivou-se apreender as experiências de luto e do imaginário dos pacientes que realizaram transplante cardíaco. Contou-se com nove participantes, que responderam a um roteiro de entrevista semiestruturado, cujos dados foram compreendidos por meio do software IRAMUTEQ e, de forma completar, com análise de conteúdo. Os resultados organizaram-se em três classes centrais. A classe 1 – “Experiências pré e pós-transplante” abrange sentimentos vivenciados na fila de espera, expectativas sobre a cirurgia, relação com a equipe médica e tensões do período pós-operatório. A classe 2 – “Atitudes e sentimentos em relação ao novo e antigo coração” descreve significados atribuídos ao órgão, percepção de mudanças na vida após a cirurgia e ausência de luto pelo coração retirado, frequentemente associado a alívio. A classe 3 – “Importância familiar” evidencia o papel da família na recuperação, a associação simbólica do novo coração ao cuidado com um “filho” e idealizações sobre a família do doador. As análises complementares indicaram diferenças discursivas por sexo e idade, e a similitude destacou termos centrais como “pessoa”, “coração” e “transplante”. Também constatou-se diferenças discursivas por gêneros — os homens com falas mais centradas em aspectos técnicos, e as mulheres em dimensões emocionais — além de contrastes entre faixas etárias, com discursos mais otimistas entre jovens e maior ênfase em responsabilidades entre participantes mais velhos. Conclui-se que os pacientes articulam elementos objetivos e simbólicos ao elaborar suas experiências de transplante. Não houve expressão de luto intenso pelo coração retirado, mas há frequente preocupação em preservar o novo órgão.

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Biografia do Autor

Mariana Braga TEÓFILO, Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Programa de Pós-Graduação em Psicologia - PPGP. Fortaleza, CE, Brasil.

Psicóloga formada pela Universidade de Fortaleza -UNIFOR (2017). Especialização na modalidade Residência Multiprofissional em Atenção Oncológica - Psicologia, pelo Hospital Universitário de Brasília -HUB -UnB (2018-2020). Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza - UNIFOR (2020-atual). Atua como psicóloga na Clínica Oncovie (Centro de Oncologia e Hematologia). Possui formação em Psicologia Breve-focal, Cuidados Paliativos, com experiência na área de Psicologia da Saúde e Psicologia Hospitalar.

Luís Eduardo Pontes LUNA, Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Centro de Ciências da Saúde – CCS, Curso de Psicologia. Fortaleza, CE, Brasil.

Graduando de Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Bolsista CNPQ

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Publicado

27-02-2026

Como Citar

TEÓFILO, M. B., LUNA, L. E. P., & MELO, C. de F. (2026). Entre o real e o imaginário: as percepções dos pacientes sobre o transplante cardíaco. Revista Da Sociedade Brasileira De Psicologia Hospitalar, 29, e005. https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.2026.v29.763

Edição

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